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AVATICATA VIDEOS E PRODUÇÕES

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sábado, 31 de julho de 2010

vinte quatro horas pai

intervalos de sonho

 Somos ambos homens
de poucas palavras
claras

quarta-feira, 28 de julho de 2010

senso comum

      Sem um senso comum, um princípio, não há sociedade. Não obstante, que é isso? Coisa feita? Matéria divina? Nada, o grande problema é justamente esse: o senso comum é uma construção do coletivo.
     Quando resolvemos nos juntar, sabe lá deus quando, criamos um sentido para isso. Nada acontece na vida do bicho homem que não lhe seja perceptível e interpretável, porque temos em nós essa capacidade de transformar os estímulos sensoriais em imagens, que recebem sentido por meio de uma série de fatores que constituem o indivíduo social.
      A linguagem nos permitiu uma comunicação única e pudemos produzir e legar conhecimento aos nossos filhos, criando a tradições. Só que os homens viviam em grupos, como os animais, e tinham suas diferenças. A civilidade nos trouxe pra perto, a superpopulação mundial, todos divididos em nações, comprimidos em cidades, às vezes famílias inteiras habitam um só andar, e estas diferenças são resolvidas pela diplomacia cotidiana, pelos traumas dos interditos e suas autoridades, pela propaganda, pelas tradições milenares, pelos valores, a diversão, as reflexões, até sua calcinha é uma maneira de te colocar mais igual a todo mundo.
     O bom senso será, portanto, talvez mais do que a água, a grande pedra preciosa do futuro. As pessoas são quase sempre tão previsíveis, parafraseando ícones, colocando suas vidinhas nas mãos de qualquer um pra ter uma série de prazeres pequenos e sucessivos. São uma forma de vida que se julga inteligente e, no entanto, rodam em círculos. Quando arruinada a prudência, e desandam a falar como se pudessem sumonar alguma grande entidade que lhes faça valer a palavra, aparece o câncer gerado pela falta de desconfiômetro no corpo. A metástase desce redonda e a galera nem se dilata. Fica todo mundo abraçadinho na mesma ideia, sorriem, um alívio, o rosto chega a cair um pouco.
     Às vezes, vou te falar, isso dá um pouco no saco...


por um centímetro e setenta e cinco
não nasceu o rei da babilônia
pelo cu de sua mãe
ninguém pensou em atirar na fossa
aquela criança que calada via
não lhe acharem parecida em nada
com um monte quente de bosta
e toda sua sabedoria vasta
não lhe serviu mais do que as águas
derramadas pelos olhos grelados
para garantir uma vida mansa e farta

terça-feira, 27 de julho de 2010

one hell of a movie

I wish...


     Por mais que não pareça, de vez em quando, não gosto de fazer críticas negativas. Ora, seria ótimo viver num mundo onde as coisas fossem mais indefectíveis, numa escala de perfeição comum. Acontece que sabemos que não é assim e a merda vai ao ventilador todo mês, com lançamentos e lançamentos de rumas inteiras de grande e fedorento estrume.
     O Oscar é um dos grandes justificadores desse tipo de atitude, e se o bolo tem cereja, meus amigos, o Oscar é aquele milho amarelo-dourado que enfeita o grosso calibre de fezes que sai em cartaz. E Crazy Heart não é exceção nesse grande sanitário de ideias que é Hollywood. Aluguei o filme por conta dos 2 Oscars que ganhou, além de ser viciado em filmes sobre bandas e músicos, mas foi decepção do começo ao fim.
     Vamos lá, além de Collin Farrell e Jeff Bridges não saberem cantar, e não precisarem, as músicas são uma merda. Essa The Weary Kind é o tipo de balada melosa que não precisa ser boa, que pela roupagem mais superficial e pelo contexto onde aparece deixa todo mundo adoçado. É um saco e completamente irrelevante. Não obstante, as atuações são medíocres. Jeff Bridges é um ator muito fraco e o Farrell mais ainda. A tentativa de caracterizar seu personagem dando a ele um jeito estranho de olhar não deu muito certo. O Bruno Gagliasso já faz isso aqui e não é grande coisa.

     Filmes de merda. Só servem mesmo pra se tirar o positivo da experiência negativa. TRASH CAN ADVISORY.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sou o teu fenômeno. Fecha os olhos e sinta. Pode rejeitar a chuva que dá na cabeça, de repente, com tuas mãos estendidas e teu grito medonho? Pois tentando fica numa tal situação de embaraço, um desespero que claramente alerta ao ser sem qualquer sujeição; esse nunca admitir a falta de senhoria sobre as coisas vivas... Aceita, sou teu fenômeno!, uma crença abandonada, cujos fantasmas são reis na escuridão grosseira que tua memória legou aos fatos, mútuos entre nossos corpos, raros. Fazer de nós um nada? Desembaraçar olhares na marra? Que tipo é você que mergulha os retratos no limbo, que apaga os acidentes epidérmicos feito uma espécie rara de ácido não-sei-o-que-lá-ico? Pois não pode destituir as pontes dos passos que faço do presente ao passado, onde meu regozijo é lato e denso, onde meus momentos são o conteúdo do teu índex actus prohibitorum. Bálsamo dos primeiros dias ao relento, mas agora este projeto de evasão, tão ingênuo, tão cheio de energia e pouca reflexão, tão longos os gestos e rápidos os dias que se esvaem como se a ferida estivesse para sempre aberta. E está, não é verdade? Abre tua boca, não escancara tuas pernas, bebe em goles poucos, deixa que os espaços se preencham dos lamentos da sede, que a tua saciedade seja um quase-lá deste vir-a-ser que nada é, afinal, senão fenda. Greta na rocha do torso onde venta um canto iâmbico, de três ou quatro versos épicos que declama aos ácaros, todos muito perplexos. Nos teus sonhos os castelos serão derrubados, no lugar deles virão os prédios, e verão os homens no inverno, de suas janelas dilatadas, que cada pétala sobre pétala traz uma gota do teu barro vermelho, que a tua alma está por trás de cada luz que se acaba antes de vencer as estrelas, presa às minhas veias pelos lábios molhados.

domingo, 18 de julho de 2010

Conquistas...

Quando conversava com meu irmão, a respeito de filhos, disse-me que não é normal que gostemos mais de um filho que de outro. Pensei, “será que não?”, e deixei a conversa sentindo que havia mais por saber.
Não demorou, voltou-me à cabeça a ideia da preferência quando lia o texto de Kehl sobre a Delicadeza. Para a autora, a delicadeza é uma construção social, não uma condição inata. É natural ao homem responder de forma livre aos estímulos que recebe, podendo ser carinhoso, agressivo, indiferente, isso fica claro quando lembramos de uma frase muito famosa por aí: “quem diz o que quer, ouve o que não quer”. Ou seja, se você estimula alguém de uma forma considerada por ela negativa, prepare-se, porque será vítima de réplica. Isso é agir naturalmente, isso é inatismo.
Na esteira do pensamento de Maria Rita Kehl, acredito que gostar igualmente também não é algo natural. Gostamos de algo porque este algo tem representatividade. Esta representatividade é um estímulo interior que nos proporciona algum prazer, a seiva bruta do nosso bem-querer, e a recorrência desta experiência constrói vidas inteiras.
Se nos abandonamos à experiência de viver os filhos, sem um princípio, apenas pela chance de, então nos colocamos no mundo dos sentidos, afastamos a razão do processo e agimos de acordo com o interesse próprio. Bem, numa relação com crianças, seres incapazes de se impor sobre um adulto em vários aspectos, esta relação de interesse próprio é um grande autoritarismo. O princípio fundamenta a igualdade, a clareza, deixa claro o projeto em que se vive e que mais tarde será tradição familiar.
Como a delicadeza, gostar igualmente é uma conquista da nossa mágica.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

risofarsa


Máscara, a mim muito cara, queda-se neste momento tão raro — a ruína. Chego a ter na boca o gosto amargo do contraste que faz o sucesso dos outros, e o seu próprio fracasso, como se um soco lhe pegasse de surpresa, quando virava a esquina para acender um cigarro: o golpe atirando o isqueiro para baixo dos carros a galope. Retiro a moldura do rosto e me arrasto até o espelho, quero ter a constatação do óbvio, quero sofrer o ataque do meu bom senso tão estrito, mesmo quando sou eu seu objeto crítico; na verdade, pior neste caso. Está diante dos meus olhos. Estou velho até os sonhos mais remotos, será os ossos que roí no almoço? Ou o tempo ocioso que pratico no trabalho? Talvez um complô do meu corpo, que é um templo, contra este estado de espírito vago, largado em meu colo, cabelos embaraçados nas mãos e um sono difícil. Vou no embalo evitando os sábados, domingos e feriados santos, esperando que a cortina abrace um único ato antes que descanse sem hora pra acordar — quero meu grito sufocado no único gesto ambíguo que o traço, engessado pelo vício, oferece ao povo descarnado: o riso.

domingo, 11 de julho de 2010

Estória para Ravi

     Certo dia, passava pela estrada uma única família de crianças, todas de mãos dadas, porque eramos filhos da Casa dos Antoninos. Tomaram o rumo do mundo juntos e todos os dias compartilhavam as experiências que tinham do caminho, se a pedra lascada podia tirar um talho da sola do pé, se o ovo cru do pássaro forrava o estômago direito, se as galinhas podiam prever a chuva que vinha surgindo.
      Um velho risonho, de gestos macaqueados, apareceu num determinado ponto da jornada, contando piadas, fazendo os outros rirem todos muito sutilmente, coisa que se esconde com alguma educação, no entanto, estavam todos alegres com o fato e dançavam, famílias e famílias, cruzando os braços, menos uma das crianças, a que tinha escutado tudo com estômago de cera, avesso às hulhas acesas da alegria. Azedo, afastou-se em direção oposta, mas tudo parecia contagiado pelas faíscas do espetáculo. "Um espelho", disse o velho, "é meu presente de aniversário".
      O jovem apanhou o presente e se viu refletido ali, mas por pouco tempo, já que a face luminosa do objeto se tornou escura, tão densa que parecia ter profundidade. Encostou o rosto na superfície e sentiu que a massa negra moldava seu rosto com toques mornos e úmidos de mãos ternas. Poderia ficar ali por uma eternidade, mas sentiu que seu corpo despencava, então recuou o bastante para ver que a cara ficara marcada na massa estanque, máscara rara de um instante que agora latejava no caminho, feito qualquer fruta no pé do quintal alheio, feito bicho solto, ninho.
     Juntou-se às outras crianças e seguiu, deixando no chão o espelho do velho. O homem o pegou com satisfação e levou para casa, onde guarda tantos outros que foram deixados aos seus pés já cansados de guerra. Depositou sobre a parede o espelho verde, onde se refletia a criança doce que agora ganhava a estrada, mas que voltaria para ver o filho que deixara nas mãos do velho Vittio.
     Deu-se assim, que quando todos já eram mais velhos, viram-se diante de um desejo daquele menino, agora como eles homem feito: queria voltar para ver a criança do espelho. Sonhava que a deixara chorando, que principalmente agora precisava dele, chamava em desespero, era filho de um instante do nome, seu nome, como poderia se negar a atender seus desejos? E o grupo decidiu que esperaria pelo retorno, para que então prosseguissem com a viagem.
      Tem sido assim, desde então, quando chora a criança. A família se lança ao acostamento, levanta acampamento sobre o céu revolto, aguardando pelo retorno do irmão que parte rumo à casa do velho Vittio, onde mora a lembrança viva que lhe chama pelo nome, que lhe convida a sentar e olhar mais uma vez para o horizonte escuro dentro do espelho e ali permanecia por vários dias.
      No entanto, o sol se levanta todas as manhãs para alimentar as ocasiões, encher o acaso de cores vívidas e no fim do dia deixá-las ao cinza, ao escuro que viça não mais pelo fogo de suas entranhas, mas nos olhares oblíquos das estrelas filhas. Por isso cada dia é uma glória significativa, não uma benção do estrato alto, divinaria, mas opera do caos currado que é a vida, esse palco onde os espetáculos acontecem ao mesmo tempo no espaço.

sábado, 10 de julho de 2010

trecho do romance "Sede" de Castr'Antonio

     Franco deixou o paletó sobre a cadeira, caminhando, em seguida, até a janela que dava para as costas de uma fábrica velha de móveis. Aos olhos de Lavínia, transformava-se sutil e constantemente, como se pudesse tirar e vestir as máscaras de uma personalidade camaleônica com extrema naturalidade, e quem lhe diria incapaz? Tinha pouco menos de um metro e noventa, uma cabeça chamativa, onde os cabelos pareciam mais ralos no centro anterior, ombros alinhados e sapatos italianos nos pés dez pras duas. 
     Olhava a parede amarela encardida, com rachaduras e talhos na superfície, banhada pelo chuvisco que repentinamente adornou a cidade. Lavínia encheu os pulmões de ar. Os lábios lhe tremiam, seu coração era uma bomba à toda e muita energia fazia o rosto formigar da mais pura tensão. E se fez calada? Não, porque poucas vezes em sua vida tinha desistido de algo por conta de sintomas de um choque, uma tensão que alimentava seus desejos mais profundos por desafios.
   
— Você vai me matar? - disse-lhe, fixando os olhos duros na nuca do homem.
—  Sim, eu vou.

     O corpo de Lavínia sentiu o impacto da frieza que revestia as palavras de Franco. Um peso, o estômago se revirando, agulhadas na cabeça que se traduziram em lágrimas silenciosas, contidas em um ódio que aos poucos se alimentava de toda a dor. Franco deu um ligeiro sorriso, enquanto uma lagartixa corria pela parede na direção do telhado.

— Como?
— Como? - ele repetiu.

     Franco se virou para olhar a figura vencida. Os cabelos cobriam seu semblante, mas a voz era perfeitamente audível, entendera bem aquela palavra, "como", mas precisava ouvi-la novamente, tinha de ter certeza que não fora puramente instintivo, mas uma obra da mente tocada pela serpente, pela asa negra do amor.

— Vou rasgar sua carótida e beber todo o sangue que puder, até estar satisfeito.
— rs... é mesmo? E você é o quê, um vampiro pós-moderno?

     Aproximou-se, mirado pelas circunferências amendoadas que refletiam sua figura. Ela tinha o rosto expressivo, rejeitando a robustez que normalmente dá às mulheres um ar maternal Os lábios eram finos, sugeriam crueldade no sorriso repleto de dentes perolados. Lembrava-lhe a mulher que com ele deixara a Alemanha para morar em Kuybyshev, às margens do Volga. Puxou uma cadeira e sentou-se para melhor observar seu objeto, que lhe dava sonoros sinais de apreensão.

— Esqueça os romances que já leu sobre nós, Lavínia. A maioria diluiu a verdadeira essência.
— E qual é ela?
— Uma última história antes de morrer?
— Vocês não oferecem nenhuma cordialidade, então?
— Imagine, faço questão.

     Como era fascinante aquela postura. Diante do abismo, oferecia a dúvida. Uma mulher que lhe instigava a uma civilidade muita vez dispensada, dispensável, já que a presa não exige, geralmente, qualquer troca. Pensava que deveria empalhá-la depois de se alimentar, para que fosse memória artística de uma experiência rara. Queria olhar para ela e deleitar-se com os ecos do agora.

— Os romances sobre nós procuram origem em eventos da humanidade cristã, ou então na guerra entre deuses que representam, símbolos de uma comunicação. Alguns são interessantes, mas devo confessar que a nova safra é muito vexaminosa. Como podem escrever sobre nós como andarilhos das manhãs? Como nos pintam capazes de reproduzir vida? É preciso que alguém desfaça essa tendência estúpida de nos humanizar, porque acredite, estamos muito longe disso.

— E você quer que eu escreva este livro, não é? - disse, sentindo o rosto encher de calor.
— Bem que você gostaria, não? Mas, não, não vai escrever o livro. Como disse, vou tomá-la em goles inesquecíveis. O livro será escrito por outro, alguém que prepara seu debut com afinco, neste momento.
   
    Ela afastou os olhos, mirando o assoalho. Ele molhou os lábios, queria ir em frente.

— Gosto de uma estória que ouvi sobre nós, certa vez, enquanto me preparava para penetrar as muralhas de uma pequena fortaleza ao sul da França, onde uma jovem de beleza extremamente rara morava com sua mãe, um tio e as empregadas. Era como uma jóia cercada de cães escaldados, sempre vigiando, sempre de prontidão, mas ainda caninos eram seus atos e eu bem sei como lidar com esses animais desde a infância, pois já tive uma, claro.
     Bom, certa noite me aproximei dos guardas, queria observar sua postura, sentir o que exalavam e compreender a maneira mais fácil de sobrepor suas armas. Foi quando ouvi a estória. Falavam sobre o que ouviam desde meninos, e um deles começou a narrar sua versão de nosso surgimento

     Minha mãe sempre me contou que os vampiros eram filhos do diabo. Isso aí que você disse eu não conheço, não, mas todo o povo de onde venho crê que essas pragas são as crianças de Satanás. Porque, veja bem, nosso Senhor, Jesus Cristo, era homem perseguido por muitos demônios, inclusive o próprio, só que eles não lhe podiam fazer nada além de tentar, fosse pela falta, fosse pelo medo, estavam sempre tentando, só que não tinha como atacar aquela figura tão iluminada.
     Um dia, bem sabe você que Jesus foi com seus discípulos até o Monte das Oliveiras, ao Getsêmani, um jardim muito bonito. Lá ele teve a revelação de seu destino, na noite anterior à crucificação. Ali, meu amigo, deu-se um martírio e esse foi o Pai de todos os vampiros.

— Como assim?
— O martírio a que se referia é o fenômeno do suor sanguíneo. Cristo teria passado por tamanha angústia, que a violência do trauma fez com que sangue fosse secretado pelas glândulas sudoríparas.
— E vocês vieram atrás deste sangue...
— Não, ainda não éramos "nós", mas como lhe disse, o diabo estava à espreita.

     Lúcifer vigiava os passos de Cristo, noite e dia. Tentava-lhe com pesadelhos que o filho de Deus desfazia com um gesto. Mandava-lhe animais peçonhentos que diante de si tornavam-se de estimação. Nada parecia perturbar o equilíbrio de Emmanuel.
     Quando o sangue Dele caiu sobre a grama do jardim, o demônio, imediatamente sentiu-se invadido pelo desejo, coisa que compartilhamos você e eu, também. Só que ao caído não era possível chegar àquela seiva ímpar, ainda que tivesse buscado todas as maneiras. Sentiu Lúcifer a verdadeira sede, uma aridez que lhe castigava, açoites seguidos de um desejo inatingível.
     Foi ao vilarejo mais próximo e buscou nos homens de Deus a sua nutrição, mas todos estavam fora de seu alcance. O demônio estremecia a cada passo e a cada recusa seu corpo se arrastava mais pesadamente sobre a terra, até sumir em escuridão. Despertou com as palavras de três homens, "nós negamos Cristo", eles diziam em claro e bom som. Lúcifer reuniu suas forças e espreitou o lugar onde os romanos da guarda estavam interpelando os rapazes.

E eles foram as primeiras vítimas...
— Sim, foram eles. Lúcifer ficou furioso quando percebeu que a sede que sentia jamais o abandonaria, não importa quanto sangue buscasse na face da Terra. Foi então que ele atirou, sobre os homens que negaram Cristo, sua sentença. Animou os corpos, soprando-lhes o fôlego que a morte desviava da matéria, mas não lhes restituiu a vida. Viveriam, a partir dali, movidos pela sede, insaciável busca, motor para todos os passos no futuro.
— E você acredita nisso?
— Tanto quanto se pode acreditar no próprio Deus.
— Agora, você vai me matar?
— Sim.
— Pai nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso nome...
— O telefone para o qual você ligou está desligado ou fora da área de cobertura, tente mais tarde - ele disse, a voz projetada com alguma agudeza. Lavínia, vamos, não faça isso. Não vai conseguir ajuda.
— Ajuda? Estou apenas acertando minhas contas, seu imbecil.
— Veja, escute-me, esqueça seu Deus um pouco e me dê atenção. Tenho uma proposta a lhe fazer...

quinta-feira, 8 de julho de 2010

"Não tenho que provar a ninguém o meu valor"

Assim começam as palavras do nobre Kleberson, volante do time cujo goleiro acaba de rescindir com o Bangu. Pergunto-me,

se o papel de um jogador de futebol não é o de mostrar seu valor, seu potencial, então


QUAL É?

É preciso que alguém explique, por favor, qual é o fundamento em pagar rios de dinheiro a alguém que não tem de provar nada aos que lhe garantem mulheres, noites badaladas, carros, viagens...

Gente, na boa, o que acontece com as pessoas desse país? Vocês não veem que estão sustentando, permitindo a maior maracutaia do mundo, que é um bando de caras muito mal atrás duma bola, ganhando monturos de grana, pra vir na cara de pau e dizer que "não precisa provar seu valor"?  É um absurdo que se viva de tal maneira, aceitando tamanha insanidade como algo normal. "Ah, só porque ele é pago pra fazer o que mais dois quilos de carne e um pouco de cerveja poderiam tornar um gozo prolongado, deveria eu condená-lo por estar desanimado?".

CLARO! Qual o seu problema!? Por que não rasgam dinheiro logo? Porque precisamos do papel, porque ele vale mercadoria, porque mercadoria satisfaz necessidades e assim vamos nessa roda viva tão empurrada com a barriga, cheia de pequenas ilhas preciosas onde se cultivamos fantasmas coloridos. Chegamos a nos matar por conta da fantasmagoria aguda. 

Acho que os jogadores de futebol, principalmente, precisam reconhecer seus lugares. São atletas e isso ainda tem um sentido de provação, sim, senhor, de mérito e honra, como sempre se leu nas medalhas que muita gente tem por aí enfiada nos armários ou penduradas nas paredes, as quais dá valor e ama por serem seu arquipélago memorial. O que fazem esses que se acham acima dos seus deveres? Se não estão aqui pra nos entreter de forma excepcional, POR QUE DIABOS LHES DAMOS ESSA BOA VIDA? A troco de quê você aceita viver num mundo onde seu vizinho pode ser despejado de casa, mesmo sendo um operário regular, enquanto um boa-vida vai à tevê dizer pra você, que paga a comida dele, não se meter?

ACORDA Brasil.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Particípio ativo

Particípio ativo

feito pouco leva
uma vontade toda minha
colada ao corpo
cada dente carrego
por alfabetizar-lhe o bicho
imprimindo no pescoço
os meus braços constritos a
testa escorada no disco
enquanto reto
um marimbondo corrige as falhas a talhos

tem dores que são mais amores
que os maiores anos de nossas vidas
por isso a ferida não me espanta
por isso canto enquanto o sangue espirra
tingindo a pele de matizes
diluídas as cores no suor delira

feito muito passa
meu desejo de adrenalina
refaço as curvas à ponta do lápis:
dois riscos no papel esquadrinham calamidades
aditivado volitivo vê se segura essa malandragem

rasga o quadro a quadro
temos aí um fundo preto
abismo que se faz ignorável
pela dimensão que não compreende termo
surgindo de todos os cantos
por todos os lados desvendados
debaixo dos travesseiros
sobre nossos planos imediatos
feito refém futuro grita num sofrimento
do preto se vai ao vácuo

todo amanhã acaba em si mesma
como o dragão que morde o rabo

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Divagação de Pedro Pó

taco na parede branca um conto
aumentado de tanto em tanto até...
mas é que não sou túmulo
tenho em mim mais que cova
um vontade de tecer as coisas vivas
à minha volta e ver em novas
caras a sombra dos contornos
que se arrastam no futuro brumoso
com vozes distorcidas

quero ver cheia a bola gorda
túrgida de acidentes externos
com as artérias entupidas de mentira
e adultério barato
como animais que livres da gravata
com o esterno frouxo no pescoço
sem olhar as capas e as folhas de rosto
fazem gestos desprovidos de culpa
sangram pra atingir grandes alturas
não carregam nada para dentro do quarto
deixam tudo sobre o capacho velho
dormem como crianças no berço logo perto
sonhando com porres de fanta uva

às vezes o mundo me arranha
arrumo tinta na marra e pinto desenganos
farpas no olho da gente de fé
com seus mantras particulares sobre alguém
de vida santa
levo o quadro até a praça e ofereço
a qualquer preço essa farsa
arte que é exibicionismo
desnudamento dum momento de medo
precária
sem aquele vestígio de universalidade
relato de um estrangeiro e quê mais?
tem dias que deixo a imagem no lixo
em outros pago o aluguel adiantado

é estranho como podem ver fantasmas
coloridos
as pessoas que saem por ai
sem ter lugar pra ir
e vão olhar a si mesmas no reflexo dos cacos
que outros deixaram no caminho
porque toda dor é amor
e todo amor é parto