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quarta-feira, 17 de março de 2010

Suburbanidades - Ato I

Um pouco de sol sobre a mesa, um semicírculo desenhado na tábua, atravessando o cotovelo dela; pequeno, sabe? Liso, sem manchas, um braço sem defeitos. Na escuridão, sentado à frente, sem brilho nenhum, ele, mais velho, cotovelo grosso exposto, homem de maiores proporções. Comem, não parecem entusiasmados com o fato, mas comem pelo hábito. Sinto uma leve tensão no ar, como se os primeiros laços do dia fossem nós cegos.

- Queria assistir a peça lá no Bataglia...
- Que peça?
- Aquela, te falei, ontem.
- Diz o nome, cara, o nome...
- Porra. "Quatro coisas..."
- Quê?
- "...de nós dois".
- O que você falou?
- Ih...
- Acordou de mal humor? Não vem de patada, não.
- Ih, cara, foi uma interjeição. Não mandei você à merda, nem nada. Eu, hein!

Ele se propõe a lavar os pratos, talheres, a louça do dia anterior. É um gesto voluntário, feito em silêncio absoluto. Ela sente a ligeira angústia subindo pelas paredes do estômago, uma azia dracônica ruflando asas no interior, então escora na pia, leva a revista junto e amansa a voz, deixa macia, um tom de falar com nenéns.

- Vai comigo?
- Pode ser.
- Pode ser, não. Vai comigo, poxa.
- Eu vou com você.

Um beijo, no rosto. De alguma forma, não caiu bem, suponho. Ele sorri azedo, por fora até engana, mas é depois que o rosto relaxa que a gente percebe o resquício de amargura moldando a máscara.

- Eu adoro a Maria Claudia Lanheiras.
- Aquela que fez "Falso testemunho"?
- É, a loirona.
- Claro que você gosta dela. Todos gostamos. Ela deixa qualquer um excitado.
- Como assim, cara?
- Você gosta dela pelo talento?
- Por que não?
- Onde você vê algum ali? Não força a barra, vai.

Ele nem seca, joga tudo dentro do plástico e que o tempo dê conta. Abre a geladeira, cerveja gelada, queijo, vai tudo pra mesa. A televisão não mais desligada joga na cara a mesa redonda, futebol discutido na mais pura superficialidade, pra você, amigo da rede.

- Acho que ela trabalhou bem na maior parte dos filmes que fez.
- Claro que acha. Como não acharia?
- O que você tá dizendo? Para de se esconder atrás de ironia idiota.
- Estou dizendo que os critérios que você adotou pra achar qualquer um alguma coisa são as mesmas bostas que fazem de capas de revista e programas de televisão a mesma merda com as figurinhas carimbadas de sempre. Agora, o que isso importa? Nada na sua cabeça vai mudar, porque nada vai mudar lá fora.
- Você é muito prepotente.
- Sou, sou mesmo, e você? O que é você? Eu conquisto meu poder com o que afirmo, e cada afirmação minha é um convite pra um diálogo. Quem quiser se colocar contra, que venha, porque a derrota é um triunfo pra quem quer dar passos adiante na vida. Perder a razão é evoluir! E faço esse desafio diariamente, farei, farei sim, não pense que vou ser um abanador de rabos só pra ter identificação.
- Eu só disse que ela me agrada! Você é doente.
- O que te agrada não é o motivo, sua idiota, não se faça de vítima. Os motivos pelos quais você se agrada, sim, porque são parte de você, é você. Então, não tente evadir agora.
- Ela me agrada. Sabe? Foda-se que eu não tenha motivos pra isso, ou que meus motivos sejam esses, que você pensa, ou que sejam outros ainda mais misteriosos. Ela me agrada, ponto final, não pedi análise sobre as minhas, sobre os meus sentimentos. Guarde pra você o que acha sobre as coisas, espere que alguém pergunte, mas não venha de sermão pra cima de mim porque você não consegue aceitar o fato de que ela me agrada.
- Foda-se a ausência de motivos? Então, se eu te der um tapa na cara, agora, posso usar a mesma justificativa pra não ter que dizer nada a respeito?
- Vai me agredir? Acha que essa comparação é sensata, cara, sério mesmo? Você acha que é a mesma coisa?
- E quem disse que precisa existir equivalência na relação entre agressões? Desde quando eu disse que nesta relação a minha participação era augurada por um código de honra desse tipo? Sabe por que existe polícia? Porque pessoas não são obrigadas a nada. Não sou obrigado a fazer as coisas como você pensa que devem ser feitas, principalmente quando duas coisas tão diferentes estão envolvidas, minha propensa condição de covarde e sua autosuficiente condição de desafiadora. Vá para o inferno!

Ele sai, bate a porta, as dobradiças seguram o tranco. Ela chora, desiste, insiste, liga para os amigos, mas ninguém a assiste em nada, então ela não resiste e parte. Coloca algumas roupas na pequena mala, deixa o que não importa, pega escova de dentes, desodorante, as jóias que ganhou e as botas, porque são caras, presente importado. Deixa um bilhete sobre a cama, o qual ele encontra depois que retorna, bêbado, com a camisa fedendo a cigarro.

"Fui ao teatro. Não espere por mim"

Ele vai até o laptop, sempre ligado, pra ouvir um som. Ela escuta a música que o taxista decidiu pra ambos. Jogado na cama, ouve os diálogos na televisão vizinha, enquanto mais um filho é encomendado. Pelas janelas do carro, pingadas de chuva, ela escuta a mesma música, uma balada sobre lugares altos.

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