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terça-feira, 16 de março de 2010

O Diário de Saulo Laporta: Chuv

Dançaram aqueles dedos durante toda a noite. Não houve tempo naqueles momentos, só o do compasso, só aquele ditado pelo arquiteto das notas, das trovas, das trevas que fugiam à luz das diminutas, tão poucas, tão lúcidas, vivendo depois, em cada pensamento que parecia nascer embalados pela voz suja no piano-bar. Nem a lua foi feliz naquela noite, vendo que as criaturas alucinadas tinham outra musa, era a música, aquela linha tênue entre som e palavra, um tapa, às vezes no peito, às vezes na cara. Chegar em casa foi um começo, porque o fim estava aceito desde os primeiros passos pra longe do piano, fechado, com uma capa preta por cima, onde ficou o chapéu do artista, agora longe demais pra se lembrar. Talvez com raiva de si mesmo, talvez insatisfeito com aquela noite, como mais tantas, talvez com frio em sua cabeça quase calva, ainda resistente, mas já frágil pela idade. Talvez queira fazer outra coisa antes de morrer. Precisa de outras vaidades que não aquelas notas tão entregues, aqueles versos tão falados, aquelas mesmas estórias que ele traveste, onde joga confetes, às vezes aparando arestas ou podando as ervas daninhas dos canteiros que ergueram por aí. Ah, tuas mãos falantes me causam amor, uma admiração doce que causa vergonha, às vezes. Volto todas as noites pra confirmar que tuas falanges saudáveis ainda podem encantar o canto que aos poucos derrama; mas no dia que fores, tua musica ficará, artista, definitivamente amada por mim, sepultada em algum canto interior, pra voltar nas noites que me restam depois de ti.

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