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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Diário de Saulo Laporta - O crack da bolsa

Como é que foi? Quando eles a atiraram ao chão, meu primeiro impulso encheu a mente de imagens. A boca, de saliva. Queria desmembrá-los lentamente, cada parte separada ao gosto da violência que gestava com um prazer inexplicável. Eu não os permitiria nem alimentar a terra com o que traziam nas entranhas. Eram cinco e estavam armados, descarnados, as caras suadas metidas em expressões pouco conhecidas da gente. O corpo bateu contra a pedra, ossos e concreto digladiando pela posse do impacto como quem passa batata quente. Vitória da calçada seca, de onde sobe um calor desumano, leito pro corpo que repousa em estado de choque. Ela xinga, pragueja. Ele ri, xinga de volta, está à vontade com o circo armado pro espetáculo bárbaro.

- Como é que é?

Como poderia descrever os próximos eventos? Por dois motivos, não poderia. Primeiro, consigo lembrar apenas de alguns fragmentos do que vi e, depois, em segundo lugar, não vi muita coisa. Desmaiei assim que o tiro atingiu o 762, onde meu algoz apoiava o queixo. A trava se soltou, o disparo arrancou grande parte da cabeça. Vi quando alguns pedaços do rosto atingiram o meu, quando o sangue espirrou sobre a vista e o corpo tombou. Não demorou senti que as forças faltariam e minha luz se perdeu no meio dos zunidos.

Ao acordar, nada havia mudado, a não ser pela música. O silêncio imperava sobre todas as coisas vivas e mortas. Fiquei cerca de um minuto olhando o céu azul que se fechava em matiz espacial, até que resolvi encarar os fatos. Estavam todos mortos. Por um instante, achei que ela tivesse escapado, mas seu corpo estava mais à frente, dois disparos nas costas. Sentei sobre a tampa do bueiro, onde antes estendi a camisa, e acendi um cigarro. O pão vem pela manhã, café na vendinha que abre pontualmente às sete, o riso das crianças nas áleas imensuráveis da infância tecendo um pano grosso de fundo.

- Como é que vai ser?

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