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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

o fim da linha de mais uma noite

tem pó no teu rosto
e um resto de lápis
é o rastro do esforço
em tempos de asco

este rasgo no céu da boca
é de desgosto?
estas rugas na cara
são de espanto?

você não viu o poste
quando estava guiando?
e aquela criança que vinha
no triciclo branco?

tem um nó no teu rosto
e um resto de insônia
é o rastro do pranto
a memória de infância

um sonho acordado
mancha seu
lábio


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

testemunha ferina de um fato qualquer


em um quadrado acarpetado de gente
livros acumulados na mesa de canto
um gato sorridente acompanhando o tráfego
pelo vidro da janela naquele quarto:
duas bicicletas e um caminhão de lixo
a música do povo tocando no rádio

"meu ídolo é o Eike Batista
grande homem
fez tudo honesto na vida
sujeito de bem"

os passos dos sapatos no assoalho
ou os gritos de um casal mal humorado
acabaram acordando o vizinho de baixo
que pega o ferro dentro do armário e sai
atirando pra tudo quanto é lado: pá-pum
e o gato assistindo a tudo ressabiado

há uma poça de sangue amigo derramado
um felino sozinho
lambendo o estrago
cínico
com os bigodes manchados pelos espasmos
daquele amor vivo
em migalhas de vermelho

no canto
perto do espelho vertical
os ratos

sábado, 28 de janeiro de 2012

mensura censura ruptura neurotal


A diferença é o verde

O que separa o Brasil de ontem e o de hoje é o verde. Antes, quando era quase tudo que existia ao redor, este país era casa dos nativos, que por sua vez já era uma gente que tinha vindo de outro lugar, que tinha atravessado um caminho que foi destruído por intempéries naturais. Essa gente foi tomada como incapaz e domesticada por homens que usavam desculpas e ilusões como armas para conseguir a dominação material e espiritual. Trabalhavam pela sobrevivência, ganhavam prendas e muitos tinham pena deles. Tanto era a fragilidade desse povo que precisavam de proteção, de uma cartilha para seguir, de ordem e moral, de um líder para lhes dizer como e quando e onde, além de todos os porquês.

Hoje, o nativo brasileiro obedece à mesma cartilha, luta para sobreviver, recebe algumas prendas e, principalmente, a instrução sobre o que pensar, como pensar, quando e onde pensar e expressar, e todos os porquês que as máquinas mais inteligentes podem produzir, numa série nunca antes vista pelo homem. A tecnologia, o desenvolvimento das estruturas, os pactos sociais, principalmente, que estão velados pela violência das autoridades, deu a falsa ideia de que nos tornamos algo melhor. Não, o homem se modernizou materialmente, mas continuou preso às mesmas ideias do passado: um bocado de pessoas bravas e conformadas deve suar bastante para que um grupo de indivíduos especiais não o faça, de forma que a riqueza seja desfrutada pela capacidade de escravizar, não a de produzir.



A diferença é que hoje tem menos verde, tem mais concreto e metal, uma falsa ideia de progresso, a mesma estrutura governamental de antes – uma família real instalada no seio de um povo estrangeiro, que precisa passar pelos três ados: domado, orientado e disciplinado. O amor à pátria é uma ideia doente plantada na terra da gente, enquanto quem olha a maré diz que é, mas não é, nunca foi e nem quer.

Doze big brothers depois, nosso salário continua sendo a coisa mais ridícula da América do Sul, se formos olhar as proporções. Uma Juliana Paes depois, a vida continua dura, não encontra consolo na protagonista burra e apaixonada, nem no fim que nunca acaba. Um Roberto Marinho mais tarde, e o brasileiro não se coça, parece embriagado pela reportagem, perdido em tanto especial, tanto decote, cada sorriso, ensaios para revistas e filmes pornográficos na rede, especial de esportes, Bispo Macedo e má sorte. 


muitos serão pouco, pra que poucos sejam muito

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

sekso

ritual de invasão

a maior delícia que o mundo guarda pro corpo que vive

uma espetacular comunicação de prazeres simultâneos & repetidos hiatos 

respirafundo mundos escuros de tato total
necessistado alarmante
de comunhão

uma força imprime vasos na parede
não cede à sede
outra então se faz da vera resistência
e o seco se entrega à excrecência 
das notas e ruídos

como é a sorte da infinita jóia 
vontade de escapulir-se?

a carne sabe como sente-se só
seria medo de fugir?

não caibo num abraço de coxa suado
por isso me arrasto
um espaço
sísmico 


domingo, 22 de janeiro de 2012

rasgando real adoidado



É ISSO QUE VOCÊS CHAMAM DE ARTISTA POP?

Um fiasco desta mulherzinha que as pessoas gostam de chamar de artista, mas que não vale a merda que defeca. No vídeo, a babaca vai fazer uma firula na flauta, mas o segredo acaba revelado: playback. Ela esquece que tem mais uma frase na flauta e olha pra galera. Já era. Que grande artista, hein? Vale muito a pena  o dinheiro que você gasta, não é? Ela fica cada vez mais rica, continua a mesma retardada e você, o mesmo pobre viciado em coisa ruim.


E ISSO É O PIOR?

Claro que não, sempre pode piorar. A coisa mais absurda desse fato são as palmas do povo. O povo não está lá pra cobrar o show, pra cobrar o prazer que aquela medíocre ali em cima deve dar ao povo pela grana que ela está levando, não, jamais, eles vão pra viver um momento com essa amiga linda que fizeram... quando? Quem disse? Palmas? Vai bater palma pra quem merece, cambada de maluco! Vamos combinar aqui, galera, que a porra das palmas é um gesto que significa, OBRIGADO POR ESSE PRESENTE SENSACIONAL. Não? É obrigado por existir? Obrigado por me dar um pouco do seu tempo patético? Obrigado por fazer com que meus amigos e eu tenhamos um motivo pra falarmos e vivermos nossas vidas sem nenhum brilho independente, construída por um monte de coisa que umas pessoas falaram na televisão?


As pessoas estão acostumadas a engolir os fiascos da televisão. Os programas, inclusive, passaram a explorar bem os deslizes e transformá-los em matéria para pós-produção. 

O que eu me pergunto é, 

e o respeito pelo esforço que vários artistas fazem pra que suas apresentações sejam impecáveis

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

por que Michel Teló?

Há uma explicação bem simples, até. Vamos começar do basicão: por que você não come feijão com arroz todos os dias?

Porque é uma experiência simples, que ao se repetir, cansa. Ao comer feijão com arroz, você não só se alimenta, mas oferece uma experiência de paladar e prazeres, que é onde a gastronomia também se apóia, nesse momento de sensações. O que fica, ao fim de uma vida onde esta combinação se repete todos os dias, é um destaque da própria fome, do ato de comer. Isso me lembra um dos episódios do "5x Favela", filme que conta estórias das comunidades cariocas.


No caso de Michel Teló, o que ele representa é justamente o feijão com arroz, e o que fica valorizado é o ato de consumir.


É o mesmo que conhecer uma pessoa desinteressante. Quantas pessoas você conhece que se envolvem superficialmente com alguém, e ficam trocando de parceiro, um atrás do outro, sem um mergulho mais profundo? O interessante atrai, é o canto da sereia, puxa pras marés interiores, quase que inevitavelmente. Que tipo de encanto pode gerar alguma coisa que já veio cumprir um papel?

A produção. Michel Teló existe pra que se enalteça o poder de achar e revelar talentos, a fábrica de artistas instantâneos, que mata a fome sempre viva do povo, essa vontade de ter. Claro que eles não duram, não têm essa propriedade, porque atrapalhariam o fluxo de produção.

Quantas pessoas desinteressantes você mantém na sua vida? Pra quê? Você é aquilo que faz e atrai pra sua vida.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

um país pra brasileiro ver

http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.camara.gov.br%2FproposicoesWeb%2Ffichadetramitacao%3FidProposicao%3D524259&h=vAQEhUj5t

Esse aí é o link pro novo absurdo de todos os tempos: um deputado federal, filiado à Polícia e a uma igreja evangélica, quer que as instituições religiosas passem a vetar e validar os atos normativos, as determinações que são criadas por lei pra nossa vida.

Quer dizer, a gente lutou décadas pra se livrar do domínio do fantasioso sob a realidade material, que é a realidade social, e agora tudo vai retroceder? O povo pode ser tão imbecil assim, a ponto de permitir que uma esfera onde as coisas devem ter uma causa e uma consequência material seja dominada por uma consciência baseada na fé, que é justamente a crença sem a necessidade de um objeto material?

Isso é desumano. Essas pessoas têm de ser paradas pelo bom senso da maioria, mas como exigir que a maioria tenha bom senso, numa terra colonizada há séculos, onde a Educação é tomada por informação e funcionalidade, jamais por independência crítica?



NÓS, QUE TEMOS DISCERNIMENTO, PRECISAMOS FAZER ALGUMA COISA!

Caso contrário, nossa vida vai regredir a uma época onde um bando de homens acima da moral vai ditar como é que você deve viver a sua vida, individual e coletiva.



E se este povo não se levantar, eu saio desta merda de país e procuro abrigo sob uma pátria de gente menos idiota.