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sábado, 31 de julho de 2010

vinte quatro horas pai

intervalos de sonho

 Somos ambos homens
de poucas palavras
claras

quarta-feira, 28 de julho de 2010

senso comum

      Sem um senso comum, um princípio, não há sociedade. Não obstante, que é isso? Coisa feita? Matéria divina? Nada, o grande problema é justamente esse: o senso comum é uma construção do coletivo.
     Quando resolvemos nos juntar, sabe lá deus quando, criamos um sentido para isso. Nada acontece na vida do bicho homem que não lhe seja perceptível e interpretável, porque temos em nós essa capacidade de transformar os estímulos sensoriais em imagens, que recebem sentido por meio de uma série de fatores que constituem o indivíduo social.
      A linguagem nos permitiu uma comunicação única e pudemos produzir e legar conhecimento aos nossos filhos, criando a tradições. Só que os homens viviam em grupos, como os animais, e tinham suas diferenças. A civilidade nos trouxe pra perto, a superpopulação mundial, todos divididos em nações, comprimidos em cidades, às vezes famílias inteiras habitam um só andar, e estas diferenças são resolvidas pela diplomacia cotidiana, pelos traumas dos interditos e suas autoridades, pela propaganda, pelas tradições milenares, pelos valores, a diversão, as reflexões, até sua calcinha é uma maneira de te colocar mais igual a todo mundo.
     O bom senso será, portanto, talvez mais do que a água, a grande pedra preciosa do futuro. As pessoas são quase sempre tão previsíveis, parafraseando ícones, colocando suas vidinhas nas mãos de qualquer um pra ter uma série de prazeres pequenos e sucessivos. São uma forma de vida que se julga inteligente e, no entanto, rodam em círculos. Quando arruinada a prudência, e desandam a falar como se pudessem sumonar alguma grande entidade que lhes faça valer a palavra, aparece o câncer gerado pela falta de desconfiômetro no corpo. A metástase desce redonda e a galera nem se dilata. Fica todo mundo abraçadinho na mesma ideia, sorriem, um alívio, o rosto chega a cair um pouco.
     Às vezes, vou te falar, isso dá um pouco no saco...


por um centímetro e setenta e cinco
não nasceu o rei da babilônia
pelo cu de sua mãe
ninguém pensou em atirar na fossa
aquela criança que calada via
não lhe acharem parecida em nada
com um monte quente de bosta
e toda sua sabedoria vasta
não lhe serviu mais do que as águas
derramadas pelos olhos grelados
para garantir uma vida mansa e farta

terça-feira, 27 de julho de 2010

one hell of a movie

I wish...


     Por mais que não pareça, de vez em quando, não gosto de fazer críticas negativas. Ora, seria ótimo viver num mundo onde as coisas fossem mais indefectíveis, numa escala de perfeição comum. Acontece que sabemos que não é assim e a merda vai ao ventilador todo mês, com lançamentos e lançamentos de rumas inteiras de grande e fedorento estrume.
     O Oscar é um dos grandes justificadores desse tipo de atitude, e se o bolo tem cereja, meus amigos, o Oscar é aquele milho amarelo-dourado que enfeita o grosso calibre de fezes que sai em cartaz. E Crazy Heart não é exceção nesse grande sanitário de ideias que é Hollywood. Aluguei o filme por conta dos 2 Oscars que ganhou, além de ser viciado em filmes sobre bandas e músicos, mas foi decepção do começo ao fim.
     Vamos lá, além de Collin Farrell e Jeff Bridges não saberem cantar, e não precisarem, as músicas são uma merda. Essa The Weary Kind é o tipo de balada melosa que não precisa ser boa, que pela roupagem mais superficial e pelo contexto onde aparece deixa todo mundo adoçado. É um saco e completamente irrelevante. Não obstante, as atuações são medíocres. Jeff Bridges é um ator muito fraco e o Farrell mais ainda. A tentativa de caracterizar seu personagem dando a ele um jeito estranho de olhar não deu muito certo. O Bruno Gagliasso já faz isso aqui e não é grande coisa.

     Filmes de merda. Só servem mesmo pra se tirar o positivo da experiência negativa. TRASH CAN ADVISORY.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sou o teu fenômeno. Fecha os olhos e sinta. Pode rejeitar a chuva que dá na cabeça, de repente, com tuas mãos estendidas e teu grito medonho? Pois tentando fica numa tal situação de embaraço, um desespero que claramente alerta ao ser sem qualquer sujeição; esse nunca admitir a falta de senhoria sobre as coisas vivas... Aceita, sou teu fenômeno!, uma crença abandonada, cujos fantasmas são reis na escuridão grosseira que tua memória legou aos fatos, mútuos entre nossos corpos, raros. Fazer de nós um nada? Desembaraçar olhares na marra? Que tipo é você que mergulha os retratos no limbo, que apaga os acidentes epidérmicos feito uma espécie rara de ácido não-sei-o-que-lá-ico? Pois não pode destituir as pontes dos passos que faço do presente ao passado, onde meu regozijo é lato e denso, onde meus momentos são o conteúdo do teu índex actus prohibitorum. Bálsamo dos primeiros dias ao relento, mas agora este projeto de evasão, tão ingênuo, tão cheio de energia e pouca reflexão, tão longos os gestos e rápidos os dias que se esvaem como se a ferida estivesse para sempre aberta. E está, não é verdade? Abre tua boca, não escancara tuas pernas, bebe em goles poucos, deixa que os espaços se preencham dos lamentos da sede, que a tua saciedade seja um quase-lá deste vir-a-ser que nada é, afinal, senão fenda. Greta na rocha do torso onde venta um canto iâmbico, de três ou quatro versos épicos que declama aos ácaros, todos muito perplexos. Nos teus sonhos os castelos serão derrubados, no lugar deles virão os prédios, e verão os homens no inverno, de suas janelas dilatadas, que cada pétala sobre pétala traz uma gota do teu barro vermelho, que a tua alma está por trás de cada luz que se acaba antes de vencer as estrelas, presa às minhas veias pelos lábios molhados.

domingo, 18 de julho de 2010

Conquistas...

Quando conversava com meu irmão, a respeito de filhos, disse-me que não é normal que gostemos mais de um filho que de outro. Pensei, “será que não?”, e deixei a conversa sentindo que havia mais por saber.
Não demorou, voltou-me à cabeça a ideia da preferência quando lia o texto de Kehl sobre a Delicadeza. Para a autora, a delicadeza é uma construção social, não uma condição inata. É natural ao homem responder de forma livre aos estímulos que recebe, podendo ser carinhoso, agressivo, indiferente, isso fica claro quando lembramos de uma frase muito famosa por aí: “quem diz o que quer, ouve o que não quer”. Ou seja, se você estimula alguém de uma forma considerada por ela negativa, prepare-se, porque será vítima de réplica. Isso é agir naturalmente, isso é inatismo.
Na esteira do pensamento de Maria Rita Kehl, acredito que gostar igualmente também não é algo natural. Gostamos de algo porque este algo tem representatividade. Esta representatividade é um estímulo interior que nos proporciona algum prazer, a seiva bruta do nosso bem-querer, e a recorrência desta experiência constrói vidas inteiras.
Se nos abandonamos à experiência de viver os filhos, sem um princípio, apenas pela chance de, então nos colocamos no mundo dos sentidos, afastamos a razão do processo e agimos de acordo com o interesse próprio. Bem, numa relação com crianças, seres incapazes de se impor sobre um adulto em vários aspectos, esta relação de interesse próprio é um grande autoritarismo. O princípio fundamenta a igualdade, a clareza, deixa claro o projeto em que se vive e que mais tarde será tradição familiar.
Como a delicadeza, gostar igualmente é uma conquista da nossa mágica.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

risofarsa


Máscara, a mim muito cara, queda-se neste momento tão raro — a ruína. Chego a ter na boca o gosto amargo do contraste que faz o sucesso dos outros, e o seu próprio fracasso, como se um soco lhe pegasse de surpresa, quando virava a esquina para acender um cigarro: o golpe atirando o isqueiro para baixo dos carros a galope. Retiro a moldura do rosto e me arrasto até o espelho, quero ter a constatação do óbvio, quero sofrer o ataque do meu bom senso tão estrito, mesmo quando sou eu seu objeto crítico; na verdade, pior neste caso. Está diante dos meus olhos. Estou velho até os sonhos mais remotos, será os ossos que roí no almoço? Ou o tempo ocioso que pratico no trabalho? Talvez um complô do meu corpo, que é um templo, contra este estado de espírito vago, largado em meu colo, cabelos embaraçados nas mãos e um sono difícil. Vou no embalo evitando os sábados, domingos e feriados santos, esperando que a cortina abrace um único ato antes que descanse sem hora pra acordar — quero meu grito sufocado no único gesto ambíguo que o traço, engessado pelo vício, oferece ao povo descarnado: o riso.

domingo, 11 de julho de 2010

Estória para Ravi

     Certo dia, passava pela estrada uma única família de crianças, todas de mãos dadas, porque eramos filhos da Casa dos Antoninos. Tomaram o rumo do mundo juntos e todos os dias compartilhavam as experiências que tinham do caminho, se a pedra lascada podia tirar um talho da sola do pé, se o ovo cru do pássaro forrava o estômago direito, se as galinhas podiam prever a chuva que vinha surgindo.
      Um velho risonho, de gestos macaqueados, apareceu num determinado ponto da jornada, contando piadas, fazendo os outros rirem todos muito sutilmente, coisa que se esconde com alguma educação, no entanto, estavam todos alegres com o fato e dançavam, famílias e famílias, cruzando os braços, menos uma das crianças, a que tinha escutado tudo com estômago de cera, avesso às hulhas acesas da alegria. Azedo, afastou-se em direção oposta, mas tudo parecia contagiado pelas faíscas do espetáculo. "Um espelho", disse o velho, "é meu presente de aniversário".
      O jovem apanhou o presente e se viu refletido ali, mas por pouco tempo, já que a face luminosa do objeto se tornou escura, tão densa que parecia ter profundidade. Encostou o rosto na superfície e sentiu que a massa negra moldava seu rosto com toques mornos e úmidos de mãos ternas. Poderia ficar ali por uma eternidade, mas sentiu que seu corpo despencava, então recuou o bastante para ver que a cara ficara marcada na massa estanque, máscara rara de um instante que agora latejava no caminho, feito qualquer fruta no pé do quintal alheio, feito bicho solto, ninho.
     Juntou-se às outras crianças e seguiu, deixando no chão o espelho do velho. O homem o pegou com satisfação e levou para casa, onde guarda tantos outros que foram deixados aos seus pés já cansados de guerra. Depositou sobre a parede o espelho verde, onde se refletia a criança doce que agora ganhava a estrada, mas que voltaria para ver o filho que deixara nas mãos do velho Vittio.
     Deu-se assim, que quando todos já eram mais velhos, viram-se diante de um desejo daquele menino, agora como eles homem feito: queria voltar para ver a criança do espelho. Sonhava que a deixara chorando, que principalmente agora precisava dele, chamava em desespero, era filho de um instante do nome, seu nome, como poderia se negar a atender seus desejos? E o grupo decidiu que esperaria pelo retorno, para que então prosseguissem com a viagem.
      Tem sido assim, desde então, quando chora a criança. A família se lança ao acostamento, levanta acampamento sobre o céu revolto, aguardando pelo retorno do irmão que parte rumo à casa do velho Vittio, onde mora a lembrança viva que lhe chama pelo nome, que lhe convida a sentar e olhar mais uma vez para o horizonte escuro dentro do espelho e ali permanecia por vários dias.
      No entanto, o sol se levanta todas as manhãs para alimentar as ocasiões, encher o acaso de cores vívidas e no fim do dia deixá-las ao cinza, ao escuro que viça não mais pelo fogo de suas entranhas, mas nos olhares oblíquos das estrelas filhas. Por isso cada dia é uma glória significativa, não uma benção do estrato alto, divinaria, mas opera do caos currado que é a vida, esse palco onde os espetáculos acontecem ao mesmo tempo no espaço.